Carlos Sousa de Almeida e Carlos M. Fernandes (organizadores)
Traduções de Carlos Sousa de Almeida



Introdução por Carlos M. Fernandes
Posfácio por Carlos Sousa de Almeida



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O estilo do fotógrafo

Quando, em 1857, se realiza a segunda exposição organizada pela Société française de photographie, Théophile Gautier observa a propósito de Jean-Baptiste Antoine Alary (prova apresentada nessa exposição) que «Todo o fotógrafo afamado tem o seu estilo, de tal maneira que as suas provas não precisam de chancela para se distinguirem das de outros», in Théophile Gautier, «Exposição Fotográfica» 


Alary, Argel, Fonte árabe da Porta Nova


A autoria na fotografia

«Os fotógrafos da Álbion têm uma maneira de dispor os modelos, de distribuir as luzes, de colher as vistas, que logo se reconhecem. Há (...) neo-rafaelescos como Millais...» in Théophile Gautier, «Exposição Fotográfica»


Julia Margaret Cameron, The Rosebud Garden, 1868

Julia Margaret Cameron, Pomona, 1872

Carácter na fotografia

«Acreditamos por isso, independentemente da habilidade do preparador, numa acção do fotógrafo sobre a fotografia, e numa acção suficientemente grande para dar um estilo diferente à reprodução, matemática na aparência, de um mesmo objecto. Os retratos de Nadar, por exemplo, não têm eles um carácter muito especial, que não apresenta o mesmo modelo tratado por outro retratista não menos experimentado?» in Théophile Gautier, «Exposição Fotográfica» (1857) 

Nadar, retrato de Daguerre, 1844
Louis Daguerre, 1844
Louis Daguerre, 1844
Louis Daguerre, 1844

Nadar, retrato de Gustave Doré, ca. 1855

Nadar, retrato de Sarah Bernhardt, 1865
Sarah Bernhardt, 1865


Nadar, Edouard Manet, ca. 1870

«A convenção já não é possível»

«O que distingue as obras dos nossos grandes artistas é que, independentemente da ideia, elas se aproximam da realidade, que é a vida para a pintura. Vede as pequenas obras-primas de Meissonier, digo pequenas em tamanho; (...) há vida neles, de tal modo a forma aí está estudada, contida e expressa. Nos nossos dias, a convenção já não é possível, a fotografia desferiu-lhe o último golpe», in Émile Defonds, «A Fotografia do Ponto de Vista da Arte» (1859) 


Meissonier, O Filósofo, 1878

Meissonier, gravador, reprodução fotográfica de R. J. Bingham, 1863


Émile Defonds, Imperatriz Eugénie em Biarritz,1858, óleo s/tela

«Documentos para artistas»

Quando Eugène Atget pendurou o cartaz que dizia «documentos para artistas» à porta do seu estúdio em Paris, não imaginava que, no século seguinte, entraria na galeria dos fotógrafos mais importantes e influentes da História.


Casa onde faleceu Voltaire em 1778, 1 rue de Beaune, 1909

Esquina, Boulevard de la Chapelle e rue Fleury 76, 18e, Junho de 1921

Fête de Vaugirard, 1926


Avenue des Gobelins, 1925


Parc de Sceaux, Março de 1925, 8 horas da manhã

Um caso prodigioso

«Anunciamos uma importante descoberta do nosso célebre pintor de dioramas, o Sr. Daguerre. Esta descoberta é um caso prodigioso. Confunde todas as teorias da ciência sobre a luz e a óptica e fará uma revolução nas artes do desenho. O Sr. Daguerre descobriu a maneira de fixar as imagens que se pintam no fundo de uma câmara escura; de tal modo que essas imagens já não são o reflexo transitório dos objectos, mas a sua impressão fixa e duradoura, podendo ser levadas da presença desses objectos como um quadro ou uma gravura.» in Hippolyte Gaucheraud, «Belas-Artes. Nova Descoberta»,1839


História e Descrição do Daguerreótipo e do Diorama, Daguerre, 1839

Diorama (restaurado) de Daguerre na Igreja de Bry-sur-Marne, 1842


Daguerreótipo O Estúdio do Artista, Daguerre, 1837

O retrato

«- Vamos fazer-lhe um retrato admirável, senhor. Nem o reconhecerão. - E de que serve fazer um daguerreótipo – exclama Balandard – se não me reconhecem? – É uma maneira de falar, meu caro senhor… Queira sentar-se e não se mexa...»  in Champfleury, A Lenda do Daguerreótipo (1863) 


Litografia de Honoré Daumier, da série Les Bons Bourgeois, 1847

[Posição tida como a mais cómoda para se obter um belo daguerreótipo]

Houve, no entanto, antes de se chegar à fotografia e ao retrato, outras tentativas e métodos, como por exemplo o das silhuetas e a respectiva máquina para o seu desenho. 

William Talbot escrevia sobre o método das silhuetas:
«Outra finalidade para a qual penso que o meu método virá a ser muito conveniente é a da realização de retratos de perfil ou silhuetas. Estes são actualmente feitos à mão a partir das sombras projectadas por uma vela. É muito natural, porém, que a mão se afaste do contorno exacto, e basta um pequeno desvio para que a semelhança se altere de maneira extraordinária. Creio que este processo manual não tem comparação com a precisão e a fidelidade com que o retrato é obtido mediante a acção dos raios solares.» in «Sobre a Arte do Desenho Fotogénico, ou processo segundo o qual os Objectos da Natureza por si mesmos se desenham sem o socorro do Lápis do Artista»


Ensaios sobre a Fisiognomonia, Johann Kasper Lavater, 1792

Ou ainda o do fisionotraço, inventado por Gilles-Louis Chrétien, um processo mecânico de execução de retratos (abaixo).




Conde de Yoldi pelo fisionotraço, colecção Veerle Van Goethem 

«Tirar uma sombra»

«Sombra», em japonês, diz-se «kage». «Retrato» também. E a tradução literal do termo japonês para fotografar ou tirar uma fotografia, «satsuei», é «tirar uma sombra».


 Eliphalet Brown Jr. fazendo daguerreótipos em Okinawa, 1856 (litografia)

A apreensão inicial com a daguerreotipia

Segundo Nadar, Honoré de Balzac nunca conseguiu superar uma apreensão inicial com a daguerreotipia. Acreditava que cada corpo, na Natureza, é composto de espectros sobrepostos, infinitesimalmente, em camadas, e que a operação daguerriana roubava um desses espectros.



Balzac em 1842. Daguerreótipo de Louis-Auguste Bisson

Lewis Carroll / Charles Dodgson

Beatrice Hatch foi fotografada por Lewis Carroll em 1874. Mais tarde, recordou com particular carinho e nostalgia as sessões fotográficas, a câmara, os vestidos exóticos e as máscaras, as mãos de Carroll manchadas com colódio. Hatch tinha oito anos. Só na infância temos esta disposição para o mistério dos eventos mundanos.

 
Beatrice Hatch, 1874



Beatrice Hatch, 1874




Beatrice e Ethel Hatch, 1874



O primeiro fotolivro da História

Mais do que espelhos, os calótipos assemelhavam-se a esboços delineados por um lápis mágico (O Lápis da Natureza (download), de William Henry Fox Talbot, que viria a ser o título do primeiro fotolivro da História). 


Capa do fascículo 1 de O Lápis da Natureza, 1844

O negativo-positivo

A calotipia estabeleceu as fundações para o modelo que dominou a fotografia até ao final do século XX: o negativo-positivo. 


Negativo de calótipo, Asas de borboleta, ca. 1840



Negativo de calótipo, Árvores reflectidas na água, ca. 1840
 

Positivo de calótipo, Árvores reflectidas na água, ca. 1840

O primeiro edifício a ter a sua própria imagem desenhada

«No Verão de 1835, obtive por este método grande número de imagens da minha casa de campo, a qual se adequa bem a este propósito devido à sua antiga e notável arquitectura. E creio mesmo poder dizer ser este o primeiro edifício a ter a sua própria imagem desenhada.» in Henry Fox Talbot, Sobre a Arte do Desenho Fotogénico, ou processo segundo o qual os Objectos da Natureza por si mesmos se desenham sem o socorro do Lápis do Artista, 1839  



O primeiro negativo. Janela da casa de Talbot, 1835

«As mil florinhas de um Agrostis

«É tão natural relacionar-se a ideia de labor com a grande complexidade e a extrema minúcia de execução que nos sentimos mais impressionados ao ver as mil florinhas de um Agrostis, representado com todos os seus raminhos finos como um cabelo (e de modo tão preciso que nem a esta multitude de pormenores falta o seu cálice bivalve apenas observável à lupa), do que ao olhar para o desenho de uma grande e simples folha de carvalho ou de nogueira. A verdade, porém, é que a dificuldade é a mesma em ambos os casos.» in Henry William Fox Talbot, Sobre a Arte do Desenho Fotogénico, ou processo segundo o qual os Objectos da Natureza por si mesmos se desenham sem o socorro do Lápis do Artista, 1839 

Henry Talbot, Agrostis gigantia, 1839

Flores e folhas

«Os primeiros objectos cuja imagem procurei obter por meio deste processo foram flores e folhas, quer frescas quer seleccionadas do meu herbário.» in Henry William Fox Talbot, Sobre a Arte do Desenho Fotogénico, ou processo segundo o qual os Objectos da Natureza por si mesmos se desenham sem o socorro do Lápis do Artista, 1839 

Erica mutabilis,  1839

O conceito de positivo-negativo

No dia 31 de Janeiro de 1839, William Henry Fox Talbot fez uma comunicação histórica na Royal Society, na qual descreveu o processo fotográfico que foi aperfeiçoando desde o início dos anos 30 do século XIX, baseado no conceito de positivo-negativo (termos propostos por John Herschel) e na reprodutibilidade da prova fotográfica: Sobre a Arte do Desenho Fotogénico, ou processo segundo o qual os Objectos da Natureza por si mesmos se desenham sem o socorro do Lápis do Artista



O entusiasmo inicial

«O aparelho em si deve indubitavelmente ser considerado como o mais importante, e porventura o mais extraordinário, triunfo da ciência moderna. (...) a chapa daguerreotipada é infinitamente (usamos o termo deliberadamente), é infinitamente mais precisa na sua representação que qualquer outra pintura feita por mãos humanas.», Edgar Allan Poe, «O Daguerreótipo», 1840 


Daguerreótipo, anterior a 1843, de Edgar Allan Poe,
reproduzido da publicação «The Critic» 46, Abril de 1905.
Conhecido como daguerreótipo «McKee»
(do nome do seu último possuidor identificado).
Localização do original desconhecida.



New York Times & Commercial Intelligencer, Nova Iorque, Vol. 4, N.º 609, 3 de Março de 1840



Retrato de Jovem (um dos primeiros daguerreótipos feitos nos EUA), Samuel Morse, 1840

Uma invenção «das mais úteis e mais extraordinárias»

«Ela consiste na reprodução espontânea das imagens da natureza recebidas na câmara escura, não com as suas cores, mas com uma grande delicadeza de gradação de tons.» in Louis-Jacques-Mandé Daguerre, «Daguerreótipo», 1938-39


Bayard

As primeiras pesquisas fotográficas tiveram por objecto a reprodução da realidade, não em metal, mas em papel. A partir do início do século, o célebre Davy fizera algumas experiências nesse sentido. Outras tentativas mais ou menos felizes ocorreram depois em França e em Inglaterra, e é agora reconhecido que os trabalhos de Niépce, Talbot e Bayard são anteriores à publicação dos processos de Daguerre. 


Hippolyte Bayard, Moinhos, Montmartre, 1839

O betume-da-judeia

Tiphaigne de la Roche previa para a fixação da imagem uma «substância viscosa que intercepta os raios de luz». Niépce serviu-se do betume-da-judeia e fixou-a definitivamente em 1827 pela técnica da heliografia, com uma exposição de cerca de oito horas. É a famosa «Paisagem de Saint-Loup de Varennes».

 


 

Imagem original

Heliografia

Numa carta de Niépce ao seu irmão, este refere os testes preliminares de um processo que viria a ser baptizado pelo próprio Niépce como heliografia.


Heliografia do Cardeal George D´Amboise, realizada por Niépce em 1826.
  À esquerda, a gravura original feita por Isaac Briot (ca. 1650)

Nota sobre a primeira utilização do hipossulfito de sódio na fotografia

«Acompanham este relatório vinte e três espécimes fotográficos feitos por Sir John Herschel; um deles é um desenho do seu telescópio em Slough, fixado a partir da sua imagem numa lente.» in Carta de Herschel a Alfred Brothers, 1864


Vista de telescópio em Slough, Herschel, 1839